A prematuridade como você nunca ouviu falar – Entrevista com Teresa Ruas – Parte II

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E com um trecho do livro “Prematuridade extrema: olhares e experiências” (Editora Manole, 2016), organizado pela nossa querida entrevistada, Teresa Ruas, que começamos a segunda parte da nossa entrevista.

“Nunca vou me esquecer da equipe de enfermagem, que, naquele dia, chegou bem pertinho de mim e disse: ‘Maitê Maria quer conhecer a sua mamãe de um outro jeito hoje. Ela me disse que gostaria de ir para o seu colo’. E eu me lembro como se fosse hoje que, ao ouvir aquelas palavras, imediatamente comecei a chorar de forma intensa. Um misto de sentimentos tomou conta de todo o meu corpo, pois, ao mesmo tempo que estava muito feliz, fui tomada por um medo arrebatador e por uma culpa gigantesca.

Estava feliz porque seria a primeira vez que sentiria a minha filha em meu colo. Estava com medo porque era uma bebê tão pequena, tão frágil, entubada e toda cheia de fios, que não conseguia nem imaginar como uma criança, com pouco mais de 600 gramas, se acomodaria contra o meu tórax. E sentia culpa porque, como especialista que sempre falou sobre os benefícios do método canguru em aulas de neonatologia, estava extremamente assustada diante de todo aquele contexto”.

MN10 – Poderia nos dizer como os pais devem agir diante de uma situação de prematuridade em sua família?

Teresa – A presença dos pais é essencial para a recuperação dos bebês. O método canguru, por exemplo, é um dos recursos que mais acalentam, mais acalmam e garante o ganho mais rápido de peso para os prematuros e bebês de risco. Este método provê o contato direto pele a pele, entre pais e bebê. Tudo isso gera calor para o lactente. É como se o colo fosse também uma incubadora capaz de gerar, além do calor necessário para a manutenção da vida de todo prematuro, o cheiro dos pais, o barulho da respiração e dos batimentos cardíacos – barulhos esses experimentados intraútero e que, quando escutados novamente, acalmam e acalentam o prematuro – e, o mais importante, o amor e o afeto materno e paterno.

Bebês mais calmos e mais acalentados são bebês que se recuperam mais rápido, ganham peso e se mantém mais saudáveis durante todo o período de internação. Para a mãe, sentir o seu filho nos braços ajuda e muito a estimular a produção de leite materno. Quando tinha os meus filhos em meus braços, minhas mamas se enchiam de leite e, ao final do canguru, saia correndo para tirar leite com a máquina. Não afirmo que foi fácil os meus primeiros cangurus com Maitê Maria. Sentia muito medo, desconforto, frustração e tristeza. Segurar um bebê de 700 gramas no colo, cheio de fios e equipamentos não é nada fácil e nem mesmo confortável. Mas, diante da própria resposta do bebê diante da sensação do calor e acalento humano, vamos nos fortalecendo e vencendo os medos. Lembro-me claramente, do momento em que os meus dois filhos sentiram, pela primeira vez, o calor do meu colo, eles conseguiram abrir momentaneamente os olhos. Essas respostas de amor nos fortalecem!

É claro que todo esse contato pele a pele com os pais e bebê só poderá acontecer diante da condição fisiológica de cada lactente. Com Maitê Maria, esse contato pele a pele aconteceu após 30 dias, sendo que, em alguns momentos, ela tinha que sair correndo do meu colo, diante, por exemplo, da ocorrência de uma parada cardíaca. Mas, mesmo não a tendo em meu colo e em meus braços, eu tentava ficar o máximo de tempo com ela. Eu colocava as minhas mãos em seu corpinho, cantava para ela, orava com ela e para ela, dormia ao seu lado em uma poltrona ou simplesmente chorava. Com o Lucca, o meu primeiro contato pele a pele aconteceu com 3 dias de vida e tive que revezar momentos com ele na UTI Neonatal e com Maitê Maria em casa.

Com Maitê Maria conseguia ficar o máximo de tempo possível no hospital. Já com o Lucca, essa máxima permanência não era possível, pois tinha uma outra filha e que também necessitava de atenção, frente ao nascimento de um irmão e todas as consequências que esse fato causa para toda e qualquer criança. É importante ressaltar que cada hospital tem uma política para visitas, permanência e acompanhamento dos pais nos procedimentos médicos. O importante é que os pais possam estar presente com os seus filhos sempre que possível e permitido pela equipe médica. Ou seja, é importante que saibamos dos nossos direitos – temos o direito de permanecermos com os nossos filhos, de sabermos de tudo sobre o quadro clínico, de conversarmos com cada integrante da equipe que acompanha os nossos filhos, de recebermos ajuda terapêutica diante de nossas necessidades psíquicas e emocionais e de reclamarmos da postura e conduta ética e profissional de todo e qualquer profissional que acompanha o nosso filho.

E os nossos limites também devem ser respeitados – não podemos acompanhar todos os procedimentos que acontecem com os nossos filhos, não podemos estar presente durante 24 horas, não podemos nutrir os nossos filhos com a amamentação típica, não podemos segurá-los em nossos braços, sem que a equipe autorize e nos acompanhe nesse processo, não podemos dar banho, não podemos colocar roupas, antes que eles possam estar preparados fisiologicamente para essas atividades, entre outros aspectos.

MN10 – E o papel do pai nesta hora?

Teresa – Existem funções típicas de uma mãe e que somente ela pode fazer como manter o feto intraútero, parir, amamentar e tirar o leite das mamas. Agora, todo e qualquer cuidado, atenção, acompanhamento e afeto necessários para a saúde, bem estar e desenvolvimento da criança, mãe e pai devem ter a mesma função, independentemente de qual dos dois permanecerá mais tempo com o filho, diante, por exemplo, das exigências financeiras, profissionais, sociais e familiares de cada família e casal.

MN10 – Como uma mãe que está vivendo alguma gravidez de risco ou está esperando gêmeos, deve se preparar para esse momento? O que você falaria para essa mãe e esse pai?

Teresa – Como sempre costumo falar, a saúde não é uma ciência exata. Por mais que sejamos uma gestante de alto risco ou que estejamos vivenciando fatores de risco, como uma gestação gemelar, uma infecção bacteriana, incontinência cervical do colo uterino, hipertensão, entre outros fatores, nunca teremos a certeza absoluta de que teremos um filho prematuro extremo, intermediário, tardio ou a termo. As probabilidades existem, mas elas podem não acontecer ou acontecerem de forma muito diferente do que estávamos imaginando.

A esperança e a fé são sentimentos que podem transformar toda uma realidade de dificuldades e sofrimento. É claro que uma gestante de alto risco deve conversar muito com o seu obstetra, perguntar e expor todas as suas dúvidas, medos e angústias. Afinal de contas, se todos estiverem em prol de um mesmo objetivo, médico, gestante, companheiro e família poderão se ajudar, apoiar e acolher mutuamente.

O que me fortaleceu muito para enfrentar o nascimento de meus dois filhos foi exatamente o estabelecimento de uma relação aberta, fraterna e afetiva com o meu obstetra e toda equipe da UTI neonatal. Tinha consultas com o meu obstetra que eu somente chorava e ele pegava na minha mão e me dizia para ter confiança em Deus e nele.

MN10 – Para finalizarmos, gostaria de te pedir pra dizer algumas palavras para as mães que estão hoje com seu bebê na UTI.

Teresa – Sempre nos perguntamos o porquê de toda essa experiência e sofrimento. Em alguns momentos nos revoltamos contra nós mesmas, contra todos ao nosso redor, contra Deus. Os nossos corações se despedaçam e em muitos momentos só queremos ficar a sós e chorar muito, muito mesmo. Porém, mesmo com tanta tristeza, podemos começar a compreender o “para que” estamos vivenciando uma UTI Neonatal. Talvez para nos tornarmos mais humanas; para nos tornarmos menos cientistas; para darmos mais valor às pequenas e valorosas coisas da vida, como um sorriso sincero; para dizermos mais “ eu te amo” para as pessoas ao nosso redor; para desenvolvermos mais a nossa espiritualidade e fé em Jesus Cristo; para perdoar algumas pessoas que convivem conosco; para amadurecermos com o sofrimento e não somente com as alegrias e conquistas da vida; para compreendermos a força do afeto e, principalmente, para sermos instrumentos de esperança, amor e acolhimento para outras famílias que vivenciam nesse momento a prematuridade e todas as suas consequências.

Deixo aqui um texto que eu escrevi sobre a vivência de experiências difíceis e do qual gosto muito. Um grande abraço e com muito afeto a todos que nesse momento estejam enfrentando as dificuldades e desfechos difíceis provenientes de uma gestação de alto risco ou da prematuridade.

Experiências difíceis não foram sentidas para serem esquecidas

Por Teresa Ruas – 14 Setembro 2015

Olá a todos.

Hoje ao ler um artigo sobre o sentido das experiências em nossas vidas, não teve como não refletir sobre o significado de vivências difíceis, de sofrimentos intensos e de marcas existenciais, tais como as geradas em uma perda gestacional, aborto, nascimento prematuro extremo, nos diversos sofrimentos psíquicos e/ou cotidianos que podem ocorrer em nossas trajetórias vividas.

E uma das minhas primeiras reflexões foi justamente pensar sobre o que significa viver. Um viver muito diferente dos utópicos comerciais. Pois o “viver real”, antes de tudo, precisa ser compreendido como um processo contínuo, dialético e transformador. E mais do que isso um “território” temporal e espacial, no qual o sujeito que vive permite ser afetado por suas experiências significativas/com sentido, mesmos que essas sejam entremeadas pela tristeza, sofrimento e frustrações.

E, portanto, no meu processo reflexivo me questionei sobre o que significava ser, de fato, afetado pela vida e suas experiências. Diante da leitura do artigo, compreendi o quanto ser afetado significa a possibilidade de nos inscrever marcas, de produzir diferentes afetos/sensações/percepções, de nos deixar vestígios e de emanamos muitos efeitos sobre nós mesmos e sobre o outro ao nosso redor.

E… quando penso nas situações difíceis e que requerem muita resiliência para o enfrentamento dos efeitos produzidos, como é possível acharmos que marcas tão existenciais serão esquecidas com o tempo e/ou com a vivência de outras e diferentes experiências?

Marcas existenciais são, antes de tudo, efeitos que carregam afetos, emoções e significados profundos. Jamais serão esquecidas e/ou substituídas. Porque aquilo que, realmente, nos afeta, ocupará para sempre um lugar em nossos corações, almas e corpos. Vivenciar a morte, a perda, as frustrações, os preconceitos, a maternidade nos dias de hoje, os sofrimentos psíquicos são experiências que nos acontece, que nos afeta e que nos marcam. Isso quer dizer que:

“fazer uma experiência significativa significa que algo nos acontece, nos alcança; que se apodera de nós, que nos tomba e nos transforma. Quando falamos em ‘fazer’ uma experiência, isso não significa precisamente que nós a façamos acontecer, ‘fazer’ significa aqui: sofrer, padecer, tomar o que nos alcança receptivamente, aceitar, à medida que nos submetemos a algo. Fazer uma experiência quer dizer, portanto, deixar-nos abordar em nós próprios pelo que nos interpela, entrando e submetendo-nos a isso. Podemos ser assim transformados por tais experiências, de um dia para o outro ou no transcurso do tempo e da vida” (Heidegger, 1987).

E, frequentemente, as pessoas que estão ao nosso redor e, até mesmo a nossa própria sociedade nos impõem uma cultura/norma de que as marcas existências diante do sofrimento e da tristeza devem ser esquecidas. Portanto, que devemos virar a página, seguir a vida, parar de recordar as experiências que nos geraram marcas existenciais. Meu Deus! Como esquecer? Não tem jeito. E as pessoas não compreendem que não somente a alegria precisa ser sentida. A tristeza e as frustrações também. Afinal de contas, o ser humanos não é “um sujeito que permanece sempre em pé, ereto, erguido e seguro de si mesmo. Não é um sujeito que alcança aquilo que se propõe ou que se apodera daquilo que quer o tempo todo. Não é um sujeito definido por seus sucessos ou por seus poderes, mas um sujeito que pode perder os seus poderes. É também um sujeito sofredor, padecente, receptivo, aceitante, interpelado, submetido. Seu contrário, o sujeito incapaz de experiência com sentido, seria um sujeito firme, forte, impávido, inatingível, erguido, anestesiado, apático, autodeterminado, definido por seu saber, por seu poder e por sua vontade” (Heidegger, 1987).

Portanto, ao chorarmos infinitas vezes pela perda de um filho, pela tristeza de uma gestação de alto risco, pelas incontáveis lembranças de uma violência obstétrica, pela necessidade de milhares de conversas sobre um abortamento, significa, antes de tudo, sermos sujeitos que estamos abertos para sentir e para sermos afetados. 

A sociedade precisa compreender isso. Porque, ao invés de pregar o esquecimento das experiências difíceis, deveria pregar a elaboração e a re-significação das mesmas.

E para isso acontecer… Mães e pais precisam de tempo. Um tempo que não pode ser calculado em dias, em segundo e/ou meses. É um tempo sentido e, por isso, é regido, não por um ponteiro, mas por um coração que carrega marcas existenciais.

Elaborar e re-significar uma tristeza profunda “requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm. Requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, parar para sentir, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar. Parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço”(Bondía, 2002).

Dar-se tempo e espaço significa que muitos choros acontecerão, que a tristeza terá que ser sentida, para ser elaborada, re-significada e produzir transformações. Por isso, a nossa sociedade precisa acolher com respeito o sofrimento das pessoas. Precisa aprender a dar tempo. Precisa compreender que a experiência que afeta e que gera marca é existencial. Ou seja, ela sempre fará parte da vida do sujeito. Ela o constituirá. E acredito que as transformações só acontecerão quando cada experiência se tornar um elemento constituinte de cada um que já enfrentou uma vivência difícil.

Afinal de contas, “o sujeito da experiência é um sujeito ‘ex-posto’. Do ponto de vista da experiência, o importante não é nem a posição (nossa maneira de pormos), nem a ‘o-posição’ (nossa maneira de opormos), nem a ‘im-posição’ (nossa maneira de impormos), nem a ‘pro-posição’ (nossa maneira de propormos), mas a ‘ex-posição’, nossa maneira de ‘ex-pormos’, com tudo o que isso tem de vulnerabilidade e de risco. Por isso é incapaz de experiência aquele que se põe, ou se opõe, ou se impõe, ou se propõe, mas não se “expõe” (Bondía, 2002).

E já que temos que nos expor para elaboramos os nossos sentimentos e afetos, temos que ter mais respeito à dor existencial que cada um carrega em suas almas, corações e corpos…

Finalizo esse post, com um grande abraço a todos os pais que, assim como eu, enfrentaram e/ou que estão enfrentando situações que geram sofrimentos e marcas existências.

Fonte: https://temosquefalarsobreisso.wordpress.com/2015/09/16/experiencias-dificeis-nao-foram-sentidas-para-serem-esquecidas/


E assim finalizamos a entrevista com a Teresa. Espero que traga esperança e conforto para os pais que estão precisando e que fortaleça outros pais que estão enfrentando ou enfrentaram experiências difíceis. 

 

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