Deixa ele comer, vai ficar “aguado”!! – Mito ou verdade

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Se você é daquelas mães que controla e se preocupa com a alimentação do seu filho, principalmente em relação ao açúcar, tenho certeza que você já foi muito criticada e ainda ouviu: “Tem que dar ao bebê o que ele tem vontade de comer, senão vai ficar aguado”.

Será que realmente temos que dar tudo aquilo que comemos para nossas crianças? Será que é aconselhável dar doce para a criança antes de ela completar 2 anos de idade? Será que ela pode realmente ficar “aguada”?

Você já ouviu essa expressão “aguado”?

Muitas pessoas acreditam, principalmente em algumas regiões do país e aquelas de gerações mais antigas, que quando um bebê fica com vontade de comer alguma coisa que um adulto está comendo e ele não come, pode ficar “aguado”, uma espécie de água na boca de vontade de comer algo que não comeu.

As pessoas ainda acreditam que uma criança aguada pode adoecer e ter febres altas e delírios, que somente será curada quando conseguir comer o que deseja.

De acordo com nutricionista especializada em nutrição infantil e gastronomia, Carla Massuia, realmente trata-se de um mito e de uma crendice que há muito tempo existe e que acaba passando de geração para geração.

A verdade é que por volta dos 4 meses todos os bebês olham para os adultos quando estão comendo, o que não quer dizer que eles estejam com vontade de comer aquilo, ou estejam “aguados”.

Segundo Carla, “a criança aprende por imitação. Quando um bebê observa um adulto comendo, ela não conhece ainda o sabor da comida e nem registra na mente tão facilmente os alimentos. Ela observa porque é curiosa”.

Ainda segundo Carla, neste período de vida do bebê, a boca é o que chama mais a sua atenção, pois estão na fase oral, então a boca é tida como fonte de prazer. Você pode perceber que ele estará com a mão na boca e olhando para a boca de quem está falando e comendo, pois ficam curiosos quando a boca está mexendo, independente se é para falar ou comer. Portanto, ele não ficará aguado ou terá febre por isso, embora muitas pessoas digam o contrário.

O que acontece é que cada pessoa interpreta de maneira diferente, pois sabemos o que estamos fazendo (no caso comendo alguma coisa que o bebê não pode comer), mas eles não.

Claro que você sempre vai ouvir de alguém:

“coitadinho do bebê, dá só um pedacinho para ele, não vai fazer mal, ele está morrendo de vontade”.

Apesar de na maior parte das vezes realmente não fazer mal nenhum para o bebê, atitudes como essa podem acarretar riscos muito graves para o bebê, como, por exemplo, uma reação alérgica que não tínhamos conhecimento.

Para Carla, uma boa maneira de sair dessa enrascada com aquelas pessoas que ainda insistem em dar algo para o seu filho para ele não ficar “aguado”, “é mostrar que a alimentação é algo importante e, principalmente, estar convicta na sua opinião. Com jeitinho, dizer que quando a criança estiver pronta para aquele alimento, a família será avisada e que agradece a atenção e carinho de todos”.

As crianças vão crescer e terão tempo de comer e experimentar todos os tipos de comidas. Vai chegar uma fase na vida dela, que ela vai saber exatamente o que gosta e o que não gosta. Até lá, a obrigação dos pais é zelar pelo o seu bem-estar, inclusive na própria alimentação.

O consumo de açúcares e doces antes dos 2 anos

O consumo de açúcares e doces pelas crianças e até mesmo pelos bebês vem crescendo muito, e os pais não têm consciência do poder viciante que essa substância tem no cérebro.

Muitos estudos já demonstraram os prejuízos de desenvolvimento e o aumento de incidência de doenças crônicas e síndromes em crianças que tiveram alimentação rica em açúcares, assim como sódio e gorduras de má qualidade, e as consequências se estendem até a vida adulta.

A American Heart Association lançou recentemente uma recomendação contraindicando o consumo do açúcar para crianças com menos de 2 anos de idade. Para as crianças a partir desta idade, o consumo total de açúcar deve ser limitado a 25 g por dia, o equivalente a 6 colheres de chá.

Para a nutricionista Carla Massuia,

“antes de 2 anos de idade não há nenhuma opção de açúcar permitido, o ideal mesmo é preservar a criança do contato com o açúcar. Após essa idade, podemos usar o açúcar demerara, que preserva alguns nutrientes da cana de açúcar, perdidos no processo de refinamento do açúcar branco (esse que encontramos facilmente). A quantidade de nutrientes (potassio, magnésio e outros) não é muito significativa. O ideal é não adoçar bebidas com açúcar e evitar alimentos industrializados sempre”.


Você sabia que 6 a cada 10 crianças com menos de 2 anos consomem biscoitos, bolachas e bolos todos os dias. Os dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do IBGE, apontam que 32,3% de bebês, nesta mesma faixa etária, já tomam refrigerantes ou sucos artificiais.


O açúcar pode prejudicar ainda na absorção de alimentos saudáveis pelo organismo. Ele ainda pode provocar diversos problemas na saúde do bebê, como hipertensão, obesidade diabetes e problemas hepáticos.

Nessa idade, o organismo ainda está em formação e a criança não tem a capacidade de metabolizar esse tipo de alimento, transformando toda essa caloria em gordura e sobrecarregando o fígado.

Carla ainda acrescenta que “as crianças menores de 2 anos não estão preparadas para o açúcar (sacarose). Por possuir mais papilas gustativas que o adulto, ela tem a percepção dos sabores mais aguçados, logo, uma bala parece mais doce para a criança do que para o adulto”.

Explica ainda que, “nessa fase, também está acontecendo a formação do comportamento alimentar, então, se ofertamos açúcar para a criança nessa faixa etária, estaremos induzindo o consumo de doces e moldando sua preferência. Além disso, possivelmente ela passará a recusar alimentos com ‘menos doces’, como as frutas”.

Outra razão importante de não ofertar açúcar para a criança antes dos 2 anos, de acordo com Carla, “é a quantidade de calorias vazias (sem nutrientes) presentes nos doces industrializados ou no próprio açúcar. Não acrescenta nenhum nutriente à criança”.

Os açúcares que consumimos no dia a dia se apresenta de duas formas: o visível e o escondido.

O visível é aquele que usamos para adoçar o café, o leite, os sucos, enquanto o escondido é aquele que está embutido em alimentos industrializados, como suco de frutas, ketchup, fórmulas de leite em pó, bolachas, refrigerantes, entre tantos outros.

A necessidade de comer açúcar é dos adultos que já o consomem e não das crianças. Os bebês não conhecem o gosto das coisas até experimentarem. Não podemos dizer que ele prefere tomar um leite adoçado do que um sem açúcar se só dermos o leite para eles. Eles vão aprender o que for mostrado para eles. Segundo Carla, há crianças que aceitam, por exemplo, suco de maracujá sem açúcar tranquilamente, pois foram induzidas a isso.

Então, eles não ficam com água na boca e loucos de vontade de comer um brigadeiro se eles verem alguém comendo, pois eles não sabem nem o gosto que tem.

A necessidade é nossa e não do bebê. Muitas vezes a ansiedade também, pois ficamos loucos para ver nossos bebês lambuzados com um bolo de chocolate ou sorrindo em frente a um enorme pirulito. Não tenha pressa, tudo tem seu tempo e hora certa para acontecer.


Curiosidade

Está na moda um ensaio fotográfico chamado “Smash the cake” ou “Esmagar o bolo”, normalmente no primeiro aniversário da criança, em que ela é colocada em frente a um bolo decorado com muito AÇÚCAR, com o objetivo de registrar a reação do bebê ao experimentar o açúcar pela primeira vez ou fazer o que mais quiser com aquele bolo. A bagunça, a lambança, as caretas com certeza são inéditas, mas será que vale a pena colocar um bebê em contato com o açúcar tão novo por alguns cliques?

Pensando nisso, a nova moda agora é o “Smash the fruit” ou “Esmagar a fruta”, que tem a mesma proposta, mas o bolo é feito somente de frutas. É uma opção mais saudável, colorida e os bebês se divertem da mesma maneira. 😉


Agora se a criança já consome açúcar e a família está tentando rever os hábitos, há algumas estratégias que a nutricionista Carla pode compartilhar:

  • Adoçar sucos azedinhos com banana nanica. “Quanto mais pintadinha, mais doce ela é”.
  • Usar suco natural de maçã, como adoçante natural, ela garante que a mistura vale a pena!
  • A banana nanica pintadinha também pode ser adicionada ao leite da criança junto ao cacau 100% (sem açúcar), assim podemos nos despedir de achocolatados cheios de açúcar.

Festas de aniversário estão sempre cheias de doces e para não passar apuros com eles seguem mais algumas dicas da nutri Carla:

  • Prepare em casa um brigadeiro bacana sem açúcar, confira como fazer:
    • Amasse 1 banana nanica bem pintadinha, adicione 1 colher de sopa de cacau em pó sem açúcar, 1 colher de sobremesa de aveia em flocos finos e mexa até formar um creme homogêneo.
    • Deixe no freezer por 40 minutos e enrole em seguida. Se achar que ficou muito mole, pode adicionar leite em pó (se utilizado pela criança) ou mais aveia.
    • Leve em um potinho para a festa com o brigadeiro especial e super nutritivo.
  • Para as crianças maiores de 2 anos, o que vale é a moderação. Pode comer doce, mas não precisa se empanturrar. A grande razão de estar em uma festa é comemorar e brincar, comer faz parte, mas não precisa comer 10 brigadeiros, por exemplo.
  • Converse com a criança e diga para ela comer devagar, preferencialmente com você ao lado, para que ela crie uma referência. Quanto mais devagar, mais ela vai apreciar o sabor.

A dra. Carla Massuia é nutricionista especialista em nutrição materno infantil e gastronomia. Atua em alimentação escolar e em consultório.


E na sua casa, como estão os hábitos alimentares do seu bebê? Está conseguindo evitar o contato com o açúcar?

9 COMENTÁRIOS

  1. Em casa evitamos açúcares e gorduras na alimentação do nosso filho de 1 ano. Inúmeras vezes me falaram dá um pedaço pra ele, ele tá com vontade! E minha resposta sempre foi: Como ele vai ter vontade de alguma coisa que nunca comeu? Ele não está com vontade! Está com curiosidade!
    Se você come com cara de prazer, logicamente vai criar uma curiosidade! Experimenta fazer cara feia e ver o resultado!!!

    Fizemos o ensaio Smash the fruit com ele! Porque ele ADORA frutas! E ele se divertiu muito e nós também!

    • Oi, Melissa! Tem toda razão. Meu marido, que sempre gostou de tomar um pouco de refrigerante, fazia sempre cara feia quando tomava perto das meninas. Assim, elas nunca pediram e nunca tiveram nem curiosidade… Uma tem 6 e a outra 4 anos. O ensaio deve ter ficado lindo!!!!! Bom saber que a moda do Smash the fruit está pegando mesmo! 🙂 Beijos

  2. Amei a matéria e compartilhei com minha família que vive dizendo que o bebê está com vontade de comer! Meu filho tem 5 meses não tira o olho da gente enquanto estamos comendo, exatamente como vc citou no artigo… ele mama peito exclusivamente. Obrigada pela força, vai servir pra reforçar que o bebê não tem vontade!!! 🙏🏾

    • Oi, Kathlin! Fico feliz em saber que será útil. Busco trazer temas que realmente ajudam. Se tiver alguma sugestão de outro tema, pode mandar! 😉 Beijos

  3. Oi Guta!! Muito interessante esta matéria. Meu filho tem 1 ano e 6 meses e não permitimos produtos industrializados e refrigerantes, pecamos em adoçar o suco de maracujá e acerola com demerara, mas agora com essa matéria vi que nem o demerara é indicado para menor de 2 anos. Vamos seguir as instruções da nutricionista para que ele aceite sem o açucar!! Muito Obrigada Bjus***

    • Oi, Anastácia! Que bom que foi útil pra vcs. Agora que ele já conhece o gosto, talvez ele estranhe esse suco específico, mas não custa tentar. Que bom que já optou pelo demerara.;) Beijos

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