Desapegar é preciso? Saiba quando

Tem coisa mais gostosa do que ficar grudada no nosso bebê?

“Essa ‘coisa de pele’ dá a eles uma sensação similar ao que sentiam dentro da barriga da mãe, o que é ainda mais importante para os prematuros, em casos que é permitido que eles fiquem alguns momentos fora da incubadora. O bebê, ao receber carinho, transmite a ele algo positivo e encorajador e é essencial para o desenvolvimento cerebral”, diz pesquisa realizada pelo Nationwide Children’s Hospital de Ohio.

A ligação mãe e bebê é um vínculo especial; um sentimento que atrai você como ímã para o seu bebê; um relacionamento que faz com que a mãe sinta que o bebê ainda faz parte dela. Esse sentimento é tão forte que, pelo menos nos primeiros meses, a mãe sente-se incompleta se estiverem separados.

De acordo com o pediatra e psicanalista D. W. Winnicott, todo esse apego do início, essa dedicação completa aos cuidados com seu bebê, o fazer ele se sentir amado e desejado, é muito importante pois o ajuda a se tornar um indivíduo feliz, confiante e empático com as pessoas.

“A criança que recebe uma boa assistência e, mais importante ainda, a recebe continuamente por parte de uma pessoa, até que se sinta satisfeito em conhecer e confiar em outras pessoas também, que lhe dão amor desta mesma forma capaz de fazer com que se torne confiante e adaptável.”, disse Winnicott, em Os bebês e suas mães.

A entrega total e respeito ao desenvolvimento inicial é muito importante para o desenvolvimento da criança.

Mas todo esse processo é acompanhado do que chamamos ansiedade ou angústia da separação, o medo do abandono, que pode começar aos 6 meses, quando a criança entende melhor quando é deixada sozinha e também deixa de se ver como extensão da mãe. Essa ansiedade pode ter o ápice aos 9 meses e durar até cerca de 2 anos de idade, mas com cerca de 1 ano a criança começa a conquistar os marcos de independência e superar melhor os seus medos, se tiver tido uma boa assistência nessa fase. 😉

Normalmente, a angústia da separação coincide quando chega a hora de a mãe ter que voltar ao trabalho… E a mãe pode se sentir culpada por deixar seu bebê aos berros com um cuidador ou na creche ou na escolinha, mas saiba que essa ansiedade toda é temporária e absolutamente normal.

Essas fases também podem atrapalhar os bons hábitos de sono de seu bebê, já que ele vai querer que você esteja a seu lado durante a noite, por isso é importante manter os bons hábitos de sono, a rotina e dar atenção de verdade à sua criança quando está com ela para amenizar essas fases. (Para entender melhor sobre os princípios do sono do bebê, clique aqui.)

Nesse ponto, muitos pais, pelo cansaço de ir até o berço a noite toda, acabam cedendo à cama compartilhada.

Nesta fase, em que sua criança está mais apegada a você, é muito importante que essa ligação não permaneça um vínculo paralelo ao resto da família e de cuidadores, deixar que o bebê aceite os cuidados de outras pessoas, não ficando insegura e incomodada com isso, pois o convívio com outros adultos e crianças é muito importante para o desenvolvimento neuropsíquico do bebê.

Por volta dos 2 anos de idade, a criança já consegue compreender que o fato de a mãe estar longe não significa que ela o tenha abandonado. Essa confiança vai depender dos vínculos que foram criados dentro da própria família.

Um exemplo é dos filhos de mães superprotetoras, eles terão mais dificuldades para se distanciar da família, também conhecido como “apego seguro”. Alguns pais se iludem achando que esse grude em excesso é prova de amor dos filhos e não conseguem perceber que eles não estão criando vínculos e sim dependência das crianças.

As crianças precisam ser cultivadas e treinadas para se tornarem adolescentes independentes e autossuficientes, para que possam se tornar adultos saudáveis, seguros e independentes. Para criar esses hábitos saudáveis, é necessário que seja praticado o “desapego”.

Nosso trabalho como pais é, entre outras coisas, começar a “desapegar” de nossos filhos, desde a primeira infância, em pequenas maneiras, mas sem nunca deixar de dar atenção e amor e de ser sua base de conforto, como ensinar o bebê, já desde os primeiros dias de vida, a dormir sozinho. (Para saber como ensinar essa habilidade a ele, clique aqui.)

De modo que, na transição da fase bebês para crianças, elas já sejam seguras e não tenham problemas em dormir na casa dos avós e outros familiares. E quando forem jovens adultos, estarão liberados para se tornarem adultos por direito próprio.

Mas, então, o apego é importante ou não é?

Sim, como lemos do conceituado Winnicott, há a fase inicial, em que é muito importante para a criança todo esse apego, inclusive para a fase da independência da criança, porque ela se sentirá segura e saberá que foi e é amada. Como tudo na vida, o equilíbrio é muito importante, e a fase de “desapegar” também é importante, mas não quer dizer que sua criança precise menos de seu carinho.

Esse “desapego” também pode vir de várias formas, como: no desfralde, no desmame noturno, quando se precisa tirar a chupeta, quando chega a hora de dormir sozinho, quando chega a hora da introdução alimentar, quando chega a hora de a criança andar e descobrir as coisas sozinha…, quando temos de aceitar que nosso bebezinho está crescendo.

Consequências que o apego exagerado pode trazer à mãe

As mães que são apegadas aos seus filhos costumam viver em um eterno dilema, pois elas não conseguem se distanciar da criança por muito tempo ou mesmo por tempo algum! E se tiver que sair por algum motivo, é um sofrimento para todos, até para os familiares e o próprio pai, que gostariam de ficar mais tempo ou um tempo a sós com a criança.

Esse problema vai se tornar mais grave quando chegar na época de a mãe voltar ao trabalho ou a criança entrar na escola. Às vezes esse momento vai sendo prorrogado, mas chega-se um momento que não se tem mais o que fazer, ela precisa iniciar a sua vida escolar, aí a adaptação, tanto para a criança quanto para a mãe, pode ser bem complicada.

A dificuldade no relacionamento com seu parceiro também pode ser afetado negativamente, pois além de não haver momentos de intimidade entre o casal, o pai poderá se sentir excluído do convívio familiar, gerando insegurança e até ciúmes.

E depois que as crianças crescem e vão viver a sua própria vida, a mãe poderá sofrer com a “síndrome do ninho vazio”, podendo entrar em depressão pela falta do filho em casa. Talvez, num futuro próximo, esse apego possa gerar um sentimento de culpa, mas o sentimento de culpa pode ser o mais comum e um dos primeiros desafios que nós como mães enfrentamos desde antes de engravidarmos.

Consequências que o apego exagerado pode trazer ao filho

Já falamos que esse apego da mãe com o filho pode trazer várias consequências para a criança no futuro, como insegurança, possessividade e baixa autoestima.

Como tudo que é exagerado não faz bem, as crianças grudadas nos pais tendem a serem mais introvertidas, medrosas, agressivas e a chorar com mais frequência.

Se sua criança não consegue fazer nada sem você por perto ou fica inconsolável por muito tempo com o cuidador ou à escolinha, converse com o seu pediatra de confiança para investigarem melhor a causa ou para ele encaminhá-los a outro especialista correto.

Consequências que o apego exagerado pode trazer ao pai

Seu filho aceita apenas a companhia da mãe. A criança só quer a mamãe, para dar-lhe o leite, curar seus dodóis e fazer que ela se sinta melhor.

É difícil não se sentir rejeitado quando seu filho favorece somente a mãe. E não tem nada a ver em um dos dois serem melhores pais ou um mais amado que o outro. É apenas um vínculo de apego ao qual a criança está acostumada.

Em nossa cultura, já é natural os pais estarem mais tempo longe da família, trabalhando em longas horas, dificultando um contato maior de pai e filho. O tempo com o pai, ou com a figura paterna da criança, é muito importante ao seu desenvolvimento também e deve ser favorecido.

Saiba como favorecer o tempo do pai com o seu filho, clicando aqui.

Então, o que fazer quando os filhos são muito apegados a você?

  • A primeira coisa é ter consciência que o grude da criança com a mãe, que acontece nos primeiros meses de vida, não pode durar para sempre, mas que o vínculo estabelecido entre vocês é consistente.
  • Quanto mais você ficar pensando nos momentos que vocês irão precisar se separar, mais sofrido será para você. Sabemos que somos um espelho para a criança, que transmitimos nossos sentimentos aos nossos filhos, portanto, controle sua própria ansiedade com relação à separação.
  • Aos poucos, ainda durante a licença maternidade, tente sair para fazer a unha, tomar um café com uma amiga e deixar seu filho com outra pessoa, se possível com o pai, assim ele terá a oportunidade de exercer suas habilidades de pai e filho. E com isso, todo mundo ganha. Você ganha tempo com você e o pai ganha confiança e interação com seu filho.
  • Antes de você voltar ao trabalho, faça gradualmente a adaptação da criança com o cuidador ou com a escola. Por isso, aconselho fazer a adaptação uma semana ou mais antes de você voltar ao trabalho, enquanto ainda está em casa, para que a criança se sinta segura com essa pessoa, que para ela é estranha ou com o novo ambiente. Nessa fase, as noites podem ser mais agitadas, então melhor que ainda não tenha voltado ao trabalho.
  • Quando for efetivamente se separar da criança, para trabalhar ou resolver algo na rua, nunca minta, conte a verdade, que logo vocês se verão novamente. Faça isso feliz, com sorriso no rosto, mesmo que esteja doendo muito pra você, e deixe o seu bebê num ambiente neutro (cadeirão, tapete de atividades, carrinho…) e não no colo de quem cuidará da criança (pai, vó, babá, funcionário da escolhinha…) para seu bebê não achar que essa pessoa está te separando de você. Então, quando sair, o cuidador age e pega o bebê, reforçando o vínculo e a confiança com outra pessoa que não seja só você, o que é importante para o desenvolvimento emocional dele e para te deixar mais tranquila também.
  • Mantenha sua casa segura para a sua criança, com limites delimitados e objetos perigosos fora do alcance, para que ela possa ter seus momentos de independência, de exploração, sem que você precise estar em cima dela e chamando sua atenção o tempo todo.
  • Favoreça o vínculo entre o filho e o pai não interferindo muito em como ele está cuidando do bebê. Ficar fazendo cobranças e dando ordens de como queremos que eles façam só vai criar um distanciamento entre todos e sofrimento à criança.
  • Durante a noite, quando seu bebê acordar, dê-lhe algum tempo para ver se vai adormecer novamente sozinho, ele precisa começar a treinar a sua paciência e sua habilidade de se acalmar sozinho, se ainda não a tem. Não entre correndo no quarto, muitas vezes serão apenas sons que ele está fazendo dormindo e indo até ele você pode acabar despertando-o de vez. Se acordou mesmo, faça carinhos e diga-lhe palavras incentivadoras para ele ficar em sua própria cama e voltar a dormir. Fale de quanto o seu quarto é legal e protegido, que você está por perto… Com o tempo ele se acostumará com a situação.
  • Durante o dia, enquanto ele estiver brincando tranquilo e feliz, saia de perto um pouco, mas fazendo barulho, assobiando, conversando com ele, cantando, para ele perceber que você está por perto. Faça isso algumas vezes por dia.

Uma das primeiras lições da maternidade é lidar com o desapego, dói, é sofrido, mas é essencial para criar um filho seguro, responsável, com autoestima e que
tenha um convívio social saudável. E para você, que precisa ter seu tempo, mesmo que seja para ler ou ouvir sua música preferida.

Lembre-se que você não vai poder estar com ele o tempo todo e em todos os lugares. Isso seria impossível. Portanto, dar-se tempo para si e para seu filho interagir com familiares e outras pessoas, vai fazer você sentir essa ligação de afeto ainda maior entre você e seu filho.

Tenha em mente que seu filho sempre sentirá que seus sentimentos de amor e cuidado jamais acabarão.

Não é nada fácil praticar o desapego. Ambos irão chorar, você se sentirá culpada por não estar com seu filho em determinado momento. Mas passa… E é um período curto de adaptação.

A experiência de sua criança com o desapego é um sinal de que ele está crescendo. Está mostrando que tem a capacidade de desenvolver relacionamentos especiais com outros indivíduos. Está aprendendo a colocar seus sentimentos, confiança e desejos em outras pessoas, a fazer suas próprias escolhas e exercer uma influência no meio ambiente – todas as etapas importantes para se crescer feliz e saudável.


E como tem sido sua relação com sua criança? Estão passando por alguma fase de angústia de separação? O que tem feito para lidar com isso? Conte para nós sua experiência. 😉

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