Porque engrossar o leite do bebê pode ser um grande erro

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Engrossar o leite é um hábito antigo que ainda prevalece em vários lares brasileiros…

Neste artigo vamos descobrir se esse hábito é realmente necessário.

Muitas mães optam por “engrossar” o leite do seu filho com farinha de amido, de arroz, de cereais, ou várias outras que existem no mercado. O motivo geralmente é que acham a fórmula muito fraca, sem gosto, gostariam que o leite sustentasse por mais tempo a criança, para que a criança dormisse mais, ou ainda porque acham que o bebê não está ganhando peso suficiente.


Atenção:

Se sua criança não está ganhando peso, a melhor pessoa para avaliar isso é o pediatra ou o nutricionista infantil que você confia.


De onde vem esse hábito?

Para responder essa e outras questões, chamamos a nossa querida nutricionista materno infantil, Gysele Vilela.

A prática de engrossar o leite ou oferecer mingau com esse tipo de farinhas é algo cultural e que surgiu há muito tempo quando um dos principais problemas que o Brasil enfrentava era a desnutrição.

Nos dias atuais, o que mais preocupa os médicos brasileiros referentes à saúde pública é bem o contrário do que era antes, agora falamos de sobrepeso e obesidade.

Por isso, é preciso rever hábitos para que nossas crianças tenham uma alimentação mais saudável para combater esse problema.

De acordo com o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, do Ministério da Saúde, em 2013, aproximadamente 8% de todas as crianças registradas de 0 a 5 anos eram consideradas obesas no Brasil, um aumento de 79,3% se comparado com 2008.

“Os maus hábitos alimentares associados ao sedentarismo são as principais causas desse aumento”, diz Gysele.

Mas por que esse aumento?

“Grande parte das crianças tem pouco espaço físico para gastar suas energias e dispendem mais atenção com entretenimento multimídia do que com atividades ao ar livre, somado a isso, tem uma alimentação dita mais prática, rica em farinhas refinadas, açúcares, gorduras hidrogenadas e sódio. O que, associados, facilitam o ganho de peso contribuindo para o aumento da obesidade infantil no mundo todo”, acrescenta Gysele.

E a indústria alimentícia lança a cada ano uma grande variedade de produtos que colaboram para o aumento da obesidade no país. São carboidratos refinados, como açúcar invertido e branco, frutose, xarope de glicose, gordura trans, hidrogenada, saturada, corantes e outros tantos, que são colocadas em produtos sem necessidade nenhuma.

Então engrossar o leite pode causar obesidade e se tornar um hábito ruim?

Sim! Engrossar o leite com farinhas refinadas não é uma opção de ganho de peso saudável, por causa da alta quantidade de açúcar e da falta de nutrientes que esses produtos trazem.

Por mais que o engrossante seja composto por vitaminas e minerais, a quantidade de açúcar é MUITO maior.

O açúcar já é considerado o grande vilão da atualidade e não deve ser oferecido para crianças menores de 2 anos. Além de uma caloria vazia, sem nutriente nenhum, o açúcar é viciante e dificulta o estabelecimento de uma rotina alimentar. (Clique aqui para saber mais.)

A União Europeia proibiu a fórmula infantil adoçada de açúcar em 2009, devido a preocupações com o aumento das taxas de obesidade infantil e a possibilidade de que uma fórmula excessivamente doce possa causar sobrealimentação. A sacarose (açúcar) é permitida apenas em fórmulas especiais para bebês com alergias e, mesmo assim, não pode exceder 20% do teor total de carboidratos.

É verdade que engrossar a fórmula do meu bebê vai fazê-lo dormir melhor?

Não, justamente por causa do excesso de açúcar que esses alimentos trazem. Com a alta ingestão de açúcar o bebê vai ficar estimulado e certamente não terá uma noite de sono agradável. 

Gysele diz que a proteína e gordura do leite em excesso que pode “empachar” o bebê, embora adaptadas para o bebê, ainda tem digestão mais difícil que o leite materno, e pode dar a sensação que o bebê dormiu melhor. Mesmo que ele durma mais, a Gysele diz que não vê isso como positivo para o bebê, porque, além da digestão ser difícil, é pobre em fibras  e a grande quantidade de açúcar presente faz elevar muito a glicemia do bebê.

E é aí que mora o grande perigo: ele vai tomar, no mínimo, de 3 a 4 mamadeiras por dia, não é mesmo? Já calculou quantas calorias a mais você está dando para seu filho de algo que é basicamente farinha refinada e uma bomba de açúcar? Que seu filho ficará grande parte do dia com excesso de açúcar no sangue, que isso sobrecarrega o pâncreas em longo prazo e favorece formar e depositar gordura?

Sem contar que os fabricantes dos cereais recomendam em suas embalagens que a criança poderia consumir, no máximo, 1 vez por dia no pratinho e não na mamadeira como a maioria das pessoas fazem. O problema não é comer esse tipo de alimento de vez em quando e sim quando ele vira um hábito, que é o caso de engrossamento da mamadeira.

Podemos concluir que o leite engrossado com farinhas refinadas industrializadas, não é necessário em nenhuma situação. Para fazer sua criança dormir bem, nada melhor que um conjunto de hábitos saudáveis. (Clique aqui para saber mais.)


Observação:

Se sua criança já saiu do aleitamento exclusivo, existem muitos outros alimentos considerados do bem para uma boa noite de sono. Para saber o que o seu bebê deve comer antes de dormir, clique aqui e entenda um pouco mais.


Falando sobre fórmulas, uma dúvida que não quer calar: é verdade que elas sustentam mais que o leite materno?

De acordo com a nutricionista Gysele, especialista na área:

“Não é que sustenta mais, porque o valor calórico da fórmula tem que ser similar ao leite materno por mililitros (mL). A questão é que tem digestão dificultada, aumenta o tempo de esvaziamento gástrico e de digestão, deixando o bebê com sensação de saciedade por mais tempo. E isso pode parecer bom pra quem quer que o filho durma mais, mas é ruim, porque quanto mais difícil a digestão pior é para o trofismo intestinal, ou seja para o equilíbrio entre digerir, absorver, transportar nutrientes, estruturar a mucosa intestinal para ser uma proteção a mais contra substâncias que não devem ser absorvidas e produzir substâncias que fortalecem o sistema imunológico. Essas são algumas entre as tantas funções do intestino, para que entendamos porque é tão importante cuidar da saúde intestinal desde bebê”.

Então, se está em aleitamento materno, não há necessidade de complementar com a fórmula para sustentar mais o bebê, somente em casos específicos, com indicação do pediatra.


Atenção:

Muitas vezes as mães, pensando que o leite ficará mais “forte” e que dará mais “sustância” ao bebê, colocam mais pó que o recomendado na lata, engrossam o leite com a própria fórmula, não considerando as medidas equivalentes de água. Isso pode gerar outro problema, além do ganho de peso excessivo, a constipação infantil (para saber mais sobre isso, clique aqui). Atente-se e confie nas medidas da lata ou as passadas pelo pediatra.


Existe algum mingau “do bem” no caso de eu querer oferecer à minha criança?

A nutricionista Gysele diz que se você quiser preparar um minguauzinho para o seu filho, em algum momento do dia, “o farelo de aveia é a melhor indicação para substituir as farinhas industrializadas”, você também pode utilizar amaranto ou quinoa.

Se a intenção de fazer o mingua é apenas “saborizar” o leite, a fruta misturada ao leite é a melhor opção.

Você sabia que o peso não está necessariamente ligado à nutrição?

Se o seu bebê é magro, ele precisa de comida de verdade e não de calorias vazias, como o açúcar. De acordo com Gysele, “primeiro tem que avaliar a necessidade do ganho de peso. Muitos cuidadores e pediatras se prendem às curvas de crescimento para estipular a necessidade desse ganho. As curvas podem ser um bom parâmetro, desde que a criança avaliada seja parâmetro para ela mesma e não em comparação a milhares de crianças do mundo, que compuseram as curvas”.

“Estar no limite inferior da curva não diz nada, se ela está fazendo uma curva ascendente de peso e comprimento, mesmo que no limite inferior, se não há nada preocupante na análise dos dados clínicos, não há com que se preocupar com a curva, porque essa criança tem apenas um padrão de crescimento e ganho de peso menor, mas ganha e cresce, isso é o que importa.”

Gysele ainda acrescenta: “Se for constatado que é preciso ajuda com o ganho de peso para a criança se manter saudável, não devemos indicar os engrossantes de leite, por serem muito ricos em farinha refinada e açúcares, e sim outras medidas simples para ajudar. Cada criança terá uma necessidade, por isso é importante fazer o aporte calórico para o ganho de peso, orientado por um nutricionista infantil.”

Conforme pesquisas da SBP – Sociedade Brasileira de Pediatria, no Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia, a lactose tem um índice glicêmico (uma medida de quanto um alimento aumenta o açúcar no sangue) de 45, já a glicose pura, encontrada nos engrossantes, possui índice de glicemia de 100. Assim, os engrossantes possuem açúcar em quantidades superiores ao indicado para bebês.

A tabela a seguir, resume os principais tipos de açúcares que podem constar nas fórmulas dos engrossantes. O índice glicêmico é uma medida de quanto o açúcar afeta o açúcar no sangue. Então, quanto maior o número, mais forçará o pâncreas do bebê a trabalhar.

Devemos pesquisar, pedir orientação aos pediatras, nutricionistas e, principalmente, lermos os rótulos daquilo que servimos às nossas crianças. Todos os fabricantes tem um SAC (serviço de atendimento ao consumidor), se você tiver alguma dúvida sobre o que contém no produto, é obrigatório que o SAC esclareça suas dúvidas. Afinal, estamos educando nossos bebês para que aprendam a saborear alimentos saudáveis e serem saudáveis para toda sua vida. Concordam? 😉


Colaboradora do artigo:

Gysele Vilela – Nutricionista Materno Infantil – CRN3 – 29251, contato@gyselevilela.com.br, FB: /nutrigyselevilela, IG: @nutrigyselevilela, www.gyselevilela.com.br

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